quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Cavaleiro da Noite

Capítulo IV


            O som dos uivos fez Isabella ir à janela para averiguar o que acontecia fora. O ciclo da lua cheia não terminara, e o luar prateado iluminava as rochas ao redor do castelo. Ela ouvira uivos na noite passada, mas não verificara de onde provinham; e o que via agora era estranho: silhuetas escuras movendo-se com agilidade e rapidez entre as rochas e desaparecendo rumo à floresta. Eram seres humanos, mas outra vez pareciam não tocar o solo, como se deslizassem pelo ar.

Amedrontada, ela se afastou da janela. Preferia não ter visto o que viu. Estão indo caçar, disse para si mesma. Era comum organizarem caçadas nas florestas... mas em geral as caçadas aconteciam durante o dia. Bem, talvez seja melhor caçar certos animais à noite, refletiu, tentando convencer a si própria.

           Nervosa, Isabella começou a caminhar pelo quarto, até reconhecer o que já o podia negar: ningm organizava caçadas noturnas, muito menos saía em bandos que uivavam como lobos. Além disso, aquelas pessoas não caminhavam e sim flutuavam sobre o solo. Sem mais poder inventar explicações para negar o que via, chegara a hora de enfrentar a verdade. Ela já se encontrava naquele lugar fazia três dias, e presenciara fatos ineveis: os Cullen não gostavado sol e mantinham o castelo imerso numa noite perpétua. Edward estava sempre presente a todas as refeições, mas sua comida era diferente, e consistia em carnes quase cruas e sangrentas. Os membros do c tinham olhos claros como os de lobos, e mantinham o corpo todo coberto quando saíam do castelo durante o dia.

         As imagens de seu salvamento lhe retomaram à mente. O aroma de sangue no ar e o olhar aterrorizado dos ladrões eram lembranças vívidas. Sem querer, ela tornou a recordar o que Sue lhe contara a respeito do ser capturado no vilarejo, um demônio de força sobre-humana com dentes afiados e cujos ferimentos saravam com rapidez. Agora tudo se aclarava: aquele homem certamente era um Cullen.

          E o lorde do clã pretende me tornar sua esposa, pensou com um arrepio. Um casamento que não tinha a aprovação dos outros membros do clã. Edward passara os últimos dois dias cortejando-a como um fino cavalheiro, e o resultado é que ela começava a se render a seus encantos. Ele era atraente, mas perigoso.

         De repente, Isabella tomou uma resolução: tinha de fugir. Sem pensar duas vezes, correu a juntar algumas roupas e as enrolou num tecido, improvisando um pequeno saco fácil de transportar. Em silêncio, abriu a porta do quarto, esgueirou-se pelo corredor iluminado por velas e desceu escada abaixo. Os salões estavam desertos. Em breve ela saía do castelo, notando, com alívio, que as pesadas grades de ferro do portão de entrada estavam erguidas. Contudo, antes que pudesse cruzar o arco de pedra, uma forma escura apareceu à sua frente como se viesse de cima e lhe barrou o caminho.

     -   Boa noite, senhorita - disse uma voz grave. - Creio que não se lembra de mim. Sou Riley e ajudei a salvá-la dos ladrões.

             -   Compreendo, senhor. Agora, se me permite, gostaria de partir.

     -   Não é aconselhável sair do castelo. A floresta é perigosa, sobretudo em noite de lua cheia. Além disso, meu lorde deseja que permaneça aqui.

      -   Não me importa o que ele deseja, pois o é meu lorde nem senhor. Vou encontrar minha prima, e ninguém tem o direito de me impedir.

   De súbito, Isabella sentiu que a tocavam no ombro, e levou um susto. Numa reação cega e automática, ela se virou e cravou as unhas no rosto do homem às suas costas, arrancando pedaços de pele e carne. No instante seguinte ela percebeu que se tratava de Jasper, mas o mal já estava feito; estranhamente, ele o parecia exibir dor e sim surpresa. Muito embaraçada e balbuciando desculpas, Isabella apanhou um lenço de linho com a intenção de limpar o sangue, mas quando tornou a fitá-lo, Jasper cobria os arranes com a mão e a olhava sem exibir dor alguma. Quando retirou a o, os ferimentos já haviam quase desaparecido, e o havia sangue em sua face, apenas em suas mãos

      -   Os cortes estão fechando! - ela mal acreditava no que via.
           
      -   Foram superficiais - Jasper lambeu o próprio sangue, que ainda manchava seus dedos.

    -   Tem unhas afiadas, senhorita Isabella.

          Sem saber o que dizer, ela cerrou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar.

     -   Arranhar alguém com tanta ferocidade é estranho - comentou Riley, que presenciara a
cena.


  -   Eu me assustei quando me tocaram o ombro - no fundo, Isabella sabia que Riley tinha razão: sua reação fora mesmo estranha. - Peço desculpas, mas devo partir - e continuou tentando avançar em direção ao arco de pedra.

   Entretanto, Riley mais uma vez lhe barrou o caminho, e também Jasper deu um passo adiante, colocando-se entre ela e a saída do castelo.

   -   Mesmo que pudéssemos deixá-la ir embora, jamais permitiríamos que o fizesse à noite e sozinha.

  Isabella hesitou um momento, mas já o sentia medo. Na verdade, o que acabara de acontecer com os ferimentos de Jasper corroborava suas certezas e alimentava sua decisão de que devia ir embora daquele lugar. Os dois Cullen à sua frente não lhe pareciam ameaçadores; talvez estivessem um pouco irritados com sua intenção de ir embora.

-   Então me acompanharão ao castelo de minha prima?

-  É melhor que volte para o castelo - a voz firme de Edward soou às suas costas, e Isabella se virou para enfrentá-lo.

-   Decidi continuar minha viagem - ela fitou-o nos olhos.

-   Pretendia partir sem escolta na calada da noite, e sem levar sua bagagem? - perguntou Edward.

-   Eu... - sem saber o que dizer, Isabella virou-se para Jasper. - Por que você não seguiu com os outros que uivam para a lua?

-   Uivar para a lua não é muito diferente de cantar ao luar - respondeu Jasper com um sorriso, e Isabella corou ao se lembrar da ocasião em que fizera sua higiene no bosque, antes do ataque dos ladrões.

-   Você me observava? Que coisa rude! Afastei-me da escolta à procura de privacidade. Neste momento, Edward a segurou pelo braço e olhou-a no fundo dos olhos:
-   Por que ia embora do castelo?

Isabella se sentia pronta para dizer a verdade e revelar que já sabia quem eram, mas as palavras não saíram. A maneira como eles a fitavam agora e sua tentativa de fuga demonstravam que compreendera a verdadeira natureza do c dos Cullen.

-   Decidi que o queria mais jogar este jogo! Estava indo para o castelo de minha prima.

-   Sozinha no escuro da noite? - questionou Edward.

-   Me pareceu o melhor momento. - Isabella percebeu imediatamente a própria estupidez. Afinal, fugir de Cambrun num dia de sol teria sido uma escolha muito mais segura. - Já expliquei que desejo conhecer nobres da corte, que tenho vontade de dançar em bailes elegantes, ser cortejada por cavaleiros e usufruir da vida social e dos galanteios que as senhoritas ouvem quando...

Neste momento, contudo, Edward a ergueu e a atirou sobre o próprio ombro como se ela nada pesasse. Em silêncio, ele passou a caminhar de volta para o castelo, sem dar atenção aos protestos de Isabella. Ela soltou as roupas que trazia enroladas e começou a arranhar-lhe as costas, mas o casaco grosso de Edward tornava inútil tal ataque. À distância, Isabella ainda notou


que Jasper e Riley se divertiam com a cena, mas Edward seguiu imperturvel a o castelo e escada acima, e só tornou a colocá-la no chão quando entraram no quarto.

-   Sei que sou teimoso, mas você o é diferente de mim. Por que tentar fugir às nossas costas? Que pensa ganhar ao ouvir galanteios de cavaleiros que só estarão interessados na riqueza do dote que sua família oferecerá àquele que se tornar seu esposo? Será que não sabe que os nobres agem por interesse e para aumentar a própria riqueza e prestígio?

Irritado, Edward se afastou e fitou o fogo que crepitava na lareira. Sem saber o que dizer, Isabella se manteve calada até ele voltar.

-   É melhor tirar o casaco e se preparar para deitar! - Edward falava num tom que não admitia contestação.

Isabella não estava acostumada a cumprir ordens, mas mesmo assim obedeceu. Quando ela tirou o casaco, entretanto, Edward se aproximou, tornou a erguê-la e a deitou no leito. Em seguida, segurou seus braços de maneira a imobilizá-la.

-   Vai ficar aqui. Eu a cortejarei até que concorde em casar-se comigo.

-   Não seja arrogante... Pode me cortejar se quiser, mas isso o significa que aceitarei ser sua esposa.

Edward pareceu hesitar, como se lutasse para não ceder a um impulso interior; no instante seguinte, contudo, suspirou como se perdesse a batalha e então se deitou sobre Isabella, aproximando seu rosto do dela. Confusa, ela teve de admitir que aquele contato a excitava e que o calor do corpo do lorde sobre o seu revelava que Edward estava longe de ser um morto-vivo, e seu aroma masculino a deixava inebriada. Mas o pior era que agora ele exibia um brilho de desejo nos olhos que o tomava mais vivo que nunca, e ela reconheceu que também o desejava, mesmo preferindo que o fosse assim.

Edward era um homem lindo, e ainda que houvesse descoberto a verdadeira natureza daquele lorde, seu corpo reagia automaticamente, impelindo-a a abraçá-lo e puxá-lo de encontro a si.

-    Juro que jamais a machucarei - disse ele, afinal rompendo aquele momento em que ambos pareciam enfeitar um ao outro.

-   E por que devo acreditar em tal juramento?

Edward ainda a fitou por um breve instante, e então a beijou suavemente na testa, fazendo-a arrepiar-se ao contato daqueles lábios quentes e carnudos.

-   Creio que já acredita no que lhe digo. Penso que já sabe que está segura a meu lado, e que tanto eu como Jasper ou Victoria e Riley a protegeremos dos perigos deste castelo - ele então inclinou ainda mais o rosto e beijou seus lábios com delicadeza.

Porém Isabella não se rendeu à carícia. Edward tornou a distanciar o rosto, e ela respirou fundo antes de falar.

-   Talvez esteja a salvo com vocês, mas há outros no clã que o me querem aqui e poderão me ferir.

-   Jamais permitirei que lhe façam mal!


-   Ainda assim, o tem o direito de me manter prisioneira.

-   Não pode ao menos conceder a graça e a gentileza de permanecer uma ou duas semanas com aqueles que lhe salvaram a vida?

-   Não é justo usar minha gratidão como argumento para me obrigar a ficar neste castelo.

-    peço mais alguns dias para me dar chance de provar que minhas intenções são genuínas, e que não corre perigo comigo a seu lado. Não lhe pedirei mais que uma semana.

-   Uma semana?

-    Sim. Aman enviarei um mensageiro ao castelo de sua prima para avisá-la que você está sã e salva aqui conosco.

Isabella ainda ia retrucar que uma semana não a faria mudar de idéia, mas neste momento Edward colou seus lábios aos dela, impedindo-a de dizer o que quer que fosse. Ela jamais se vira em tal situação: um homem forte e atraente deitado sobre seu corpo e introduzindo a ngua em sua boca, numa carícia quente e úmida, que a fazia arrepiar-se.

Um imenso calor começou a tomar conta de seu corpo enquanto Edward aprofundava ainda mais o beijo. Ela se sentia viva como nunca, uma sensação idita e agradável; o medo e a irritação a abandonaram, substituídos por prazer e vontade de se entregar. Sem pensar, ela enfim cedeu e retribuiu a carícia, permitindo que suas línguas se encontrassem num contato que nada tinha de pecaminoso ou errado. Mas a magia do momento logo terminou, e ele se levantou, deixando-a aturdida sobre a cama. Isabella tinha a respiração ofegante, e o coração batia acelerado em seu peito. Edward apenas a fitava, em pé ao lado do leito.

Nenhuma mulher me fez sentir isso antes, pensou ele ao olhar o corpo desprotegido de Isabella e lutando contra o impulso de voltar a colar seu corpo ao dela. Era incrível, mas aquele beijo tomara conta de seu ser, e tudo que pensava agora era que queria mais, que desejava tê-la por completo. A repentina entrega e calorosa reação de Isabella demonstrava que ela era capaz de sentir e proporcionar uma enorme paixão; e agora ele decidia que aquela paixão tinha de ser sua.

Contudo, era necessário dar tempo ao tempo e permitir que a união completa se consumasse apenas quando também ela o desejasse.

-   Já é tarde, e você deve descansar, minha cara. - Ele ainda a olhou de modo caloroso por um breve momento antes de partir, deixando-a deitada sobre o leito.

Confusa, Isabella se levantou assim que se viu a sós. Estava irritada, mas algo lhe dizia que o verdadeiro motivo de sua zanga era o fato de Edward ter partido. Aquele homem trouxera um novo lado seu à tona, um lado que ela possuía sem saber.

No fundo, gostaria que ele voltasse e de novo a tomasse nos braços e a beijasse.


-   Uma semana - murmurou para si mesma enquanto tirava o vestido e colocava a camisola.

-   Somente terei de me manter afastada de sua sedução por uma semana, e então estarei livre...



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