segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Cavaleiro da Noite

Capítulo III


-   Que dia agradável! Vou acender o fogo para esquentar um pouco o quarto.

Isabella abriu os olhos devagar e fitou a mulher agachada defronte à lareira. Por um breve instante ela o sabia onde estava, mas então recordou os acontecimentos da noite passada. Felizmente, o travesseiro intocado a seu lado indicava que dormira sozinha.

Sonolenta, ela se ergueu e sentou sobre o leito. Victoria havia aberto a cortina de uma das janelas, revelando um dia cinza e chuvoso lá fora. Como se poderia considerar agradável um dia assim? Sua vontade era tornar a se meter sob as cobertas e continuar dormindo.

-   A senhorita está com um aspecto melhor! - Victoria, sorrindo, terminou de acender o fogo e se aproximou. - Uma boa noite de sono lhe fez bem.

Sempre prestativa, a mulher ajudou-a a levantar e indicou-lhe uma bacia de porcelana com água quente para ela lavar o rosto.

-   Já trouxeram sua bagagem.

Victoria era de fato simtica, e não fazia rodeios para dar sugestões:

-   Por que o coloca o vestido verde em vez do azul, querida?

Isabella concordou com um sorriso. Depois, Victoria a fez sentar num pequenino banco de madeira e passou a escovar seus longos cabelos. Sentindo-se à vontade, Isabella resolveu comentar algo a respeito da última coisa que lorde Cullen dissera na noite passada.

-   Não compreendi o comentário de seu senhor sobre noivo e noiva.

-   Es claro para mim: ele pretende casar-se com a senhorita.

-   Como sabe? Vo não estava aqui quando ele disse isso.

-   Ouvi o lorde conversando com Jasper a respeito. Encontrava-me perto deles, e não pude deixar de escutar o que diziam.

-    Lorde Cullen é algum louco? - Isabella ficou surpresa com a naturalidade com que Victoria tratava a situação. - Ele nem me conhece!

-   Muita gente se casa sem conhecer o njuge. A senhorita tem a mesma posição social


de meu lorde, e ele não faz questão de um dote rico, pois já tem posses e terras suficientes; além disso, é uma dama com idade apropriada para casar. A união entre vocês me parece natural... uma solução perfeita.

-   Talvez perfeita para ele, mas não para mim.

-   Por que o? Meu lorde tem sangue nobre, mas o gosta de sair do castelo e por isso o teve muitas chances de encontrar uma noiva até hoje. Os Cullen nunca saem de suas terras. É uma coincidência extraordiria que uma dama tão linda como a senhorita tenha vindo até nossos domínios, evitando que meu senhor tenha de fazer visitas à corte em busca de uma esposa à altura.

Por que será que um nobre tão atraente como Edward Cullen não sai do castelo nem freqüenta as festas da corte do rei? Era estranho que se dispusesse a casar com alguém que entrava em seu feudo por um simples acaso; mas ela ouvira falar que nem todos os senhores apreciavam a vida da corte, e preferiam se manter próximos aos vassalos. Contudo, isso não explicava a rápida decisão de desposá-la. Seguramente não se tratava de amor à primeira vista.

-   Eu gostaria muito de visitar minha prima, Victoria. Esta é a primeira vez que saio de meu castelo, e sinto necessidade de conhecer um pouco o mundo e a corte antes de me ligar a alguém de modo definitivo.

-   A corte o passa de um bando de nobres que tudo fazem para agradar ao rei, enquanto tecem comentários maldosos pelas costas uns dos outros. Trata-se de um ambiente de intrigas e, creia-me, a senhorita não perde nada mantendo-se distante de gente assim.

-   O primo de seu senhor disse que o conseguiram encontrar a dama de companhia que viajava comigo - Isabella resolveu mudar de assunto.




perto.

-    Se lorde Jasper o a conseguiu encontrar, é porque realmente ela não estava por



-   Ainda acho estranho. Talvez o tenham achado seus rastros por causa do escuro.

-   Meus senhores são capazes de rastrear qualquer pessoa que se embrenhe na floresta, sobretudo numa noite de lua cheia - assegurou Victoria. - Pronto! Está penteada e linda. Agora a levarei para o salão principal, e tomará o desjejum junto com os demais.

Isabella estava de fato faminta, e o hesitou em deixar Victoria conduzi-la escada abaixo, rumo ao salão principal do castelo. Apesar de ser dia, os corredores permaneciam escuros e iluminados por velas; pelo visto, os Cullen gostavam da escuridão, ou talvez preferissem manter as pesadas cortinas das janelas fechadas para que a luz não danificasse as finas tapeçarias penduradas nas paredes.

-   A senhorita acordou na hora de fazer a refeão - disse Victoria ao abrir a porta para o salão principal.

-   Agora é de manhã, o é? - perguntou Isabella.

-   estamos no meio do dia, mas eles tomam o desjejum neste momento. Meus lordes nunca acordam cedo.

O salão principal era enorme e ladeado por imensas lareiras a cada lado. As tochas nas paredes de pedra iluminavam o ambiente, criando mais uma vez a impressão de que era noite.


Uma mesa imensa dominava o ambiente e lorde Cullen imediatamente se levantou para recebê-la, fazendo um gesto para que se aproximasse e sentasse na cadeira a seu lado, no centro da mesa. Ele não parecia em nada um homem louco: muito pelo contrário. Seus traços masculinos eram atraentes o suficiente para encantar qualquer mulher, e seus olhos eram claros como os do primo Jasper. A mesa estava servida com carnes, queijos, pão e frutas frescas. A solicitação para que sentasse a seu lado a incomodou um pouco, pois a fazia lembrar do que ele comentara na noite passada. Afinal, a cadeira ao lado do senhor do castelo era destinada à esposa do lorde, e Isabella pensou que devia discutir a questão o quanto antes, apesar de não saber como abordar o assunto.

Isabella se serviu de frutas, enquanto lorde Edward Cullen sorria de maneira simpática. Outras pessoas compartilhavam a mesa, e seus traços eram semelhantes aos do lorde, indicando que faziam parte da mesma família. Não havia muita gente, talvez seis ou sete pessoas, e todos a fitavam com curiosidade, o que a deixava um pouco perturbada. Alguns servais entravam e saíam do salão trazendo mais comida ou vinho, e Isabella notou que, ao contrário do que ocorria em sua própria família, os vassalos tinham um tipo físico bastante diferente do de seus senhores.

-   Espero que tenha dormido bem - disse Edward.

-   Foi uma boa noite de sono - respondeu Isabella, - embora eu tenha dormido mais do que de costume - acrescentou, lembrando que a man já terminara.

Antes que ele pudesse continuar a conversa, contudo, uma pesada porta de madeira se abriu e duas elegantes pessoas apareceram: um homem vigoroso de ombros fortes, acompanhado de uma mulher alta e esguia. Ambos caminharam resolutamente em direção à mesa do lorde com os olhos fixos em Isabella. Quando se aproximaram, ela notou que tinham a pele ainda mais alva que a de Edward e Jasper. Seus traços físicos eram semelhantes aos dos Cullen, mas seus olhos eram escuros e tinham algo estranho, que provocou um arrepio em Isabella.

-   Aro, Tanya - Edward os cumprimentou com surpresa. - A que devemos a honra de sua presença? Nunca se juntam a nós no salão principal.

-   Viemos conhecer sua convidada - explicou Aro.

Edward os apresentou a Isabella. A jovem os cumprimentou com calma e polidez, mas Edward percebeu que ela parecia tensa, como se algo a ameaçasse. Mas como culpá-la por isso? Tamm ele sentia a tensão no ar, pois os recém-chegados não a fitavam com amabilidade. Aro era o líder dos sangue-puro que habitavam as cavernas nos subterrâneos do castelo, e mais de uma vez, nos últimos meses, deixara claro que se opunha a seus planos de contrair matrimônio com uma mortal. Tanya começou a acariciar a nuca de Edward, fazendo-o perceber que pretendia jogar um jogo de sedução. Ele teve de resistir ao impulso de exercer sua autoridade de senhor do clã e ordenar que voltassem às cavernas que habitavam junto com os outros sangue-puro. A rebelião começava a nascer nas cavernas, e insultar seus deres só ia piorar a situação.

-   Comerão conosco? - perguntou ele.

-    Não - Aro fitou a comida com asco. - Não apreciamos tais alimentos - virou-se para Jasper, sentado à direita de Edward. - Me admira que você compartilhe desta refeão.

-   Tenho um paladar diversificado - Jasper serviu-se de uma grossa fatia de o.

-   Eu também... - Tanya intensificou as carícias na nuca de Edward.

Surpresa, Isabella percebeu que se incomodava com a maneira sensual de Tanya tocar


Edward, e mais ainda pelo fato de ele não se opor. Incomodada, concluiu que o lorde mencionara casamento por brincadeira. Tal pensamento a irritou.

-    Pare com isso, Tanya! - Edward afastou de repente a o da bela e esguia mulher. - Não estou me divertindo.

-   Diverti-lo não é o que eu tinha em mente, querido... Edward ignorou-a e virou-se para Aro.
-   Como pode ver, a senhorita Isabella já se recuperou dos maus bocados por que passou.

-   Suponho que esteja pronta para seguir viagem - comentou Aro com um sorriso forçado.

Isabella alarmou-se ao observar aquele sorriso; o tanto por notar que era fingido, mas por revelar que seus dentes eram pontiagudos e afiados como os de Jasper. Pelo visto, tais dentes o eram o trabalho de um dentista artesão, e sim um traço da família. O mais estranho era que lembravam os dentes de uma fera da floresta, um lobo talvez. De modo instintivo, Isabella deslizou as unhas sobre a madeira da mesa para se certificar que seguiam longas e afiadas.

Edward notou o gesto de Isabella, e admitiu que suas unhas como garras não pareciam haver sofrido com o que lhe sucedera na noite passada. Ele percebeu que também Jasper parecia interessado nas unhas da dama. Terei de falar com meu primo a respeito dela, pensou, sabendo que Jasper era grande conhecedor dos clãs que habitavam a Escócia e sabia traçar descendências genealógicas como ningm. Entretanto, no momento havia um assunto mais importante a tratar.

-   Esta dama permanecerá em Cambrun - afirmou Edward em tom resoluto, tomando a mão de Isabella antes de fitar Aro e Tanya. - Ela viajava para visitar a prima e conhecer possíveis pretendentes para se casar. Contudo, decidi que a senhorita já o mais necessita procurar matrimônio.

O contato da mão do lorde produziu um calor e excitação que percorreram o braço de Isabella até atingi-la na face e fazê-la corar.

Mas ela não deixou de perceber que se envolvia numa luta de poder entre membros de um c desconhecido, e isso a preocupou e decepcionou.

-   Pretende realmente casar-se com alguém de fora e manchar a pureza de nosso sangue?
-   a voz de Aro era fria e desafiadora.

Isabella sentiu-se ofendida com o comentário, mas Edward apertou-lhe a o, impedindo-a de replicar. Tanto ele quanto Jasper adquiriam agora uma expressão dura e ríspida, e os outros sentados à mesa pareciam acompanhar o confronto num misto de temor e profundo interesse. Ela fora salva de uma situação perigosa, mas se via enredada numa disputa que podia ser tão ruim quanto o ataque dos ladrões.

-   Anunciei meus planos meses antes - disse Edward.

-   Mas nem sabe quem é esta mulher - replicou Tanya. - Talvez se trate de uma ladra.

-   Ela é a dama Isabella Swan, irmã do lorde de Dunsmuir e prima de ssica Newton. E espero que me aceite como esposo. Não há nada que manche sua reputação, e ela será bem-vinda à nossa família. Estou seguro de que é uma escolha perfeita.


-   Você deve se casar com um dos nossos, para o colocar nossa linhagem em perigo - Aro mostrava-se irritado.

-   Minha escolha ajudará a perpetuar nosso c - Edward soltou a mão de Isabella. - Você por acaso tem um filho,  Aro? Tanya gerou algum herdeiro para mantenossa linhagem? Considerando o quanto ela aprecia divertir-se, era de se esperar que já tivesse uma dúzia de herdeiros, mas seu ventre nunca gerou um novo ser.

-   Sabe que não nos reproduzimos como coelhos, ao contrário dos de fora!

-   Aro, o estou sugerindo que dessemos fazer isso, mas é preciso gerar filhos para manter a continuidade da linhagem.

-    Você enlouqueceu, Edward, e quer nos arrastar em sua loucura. É bom que saiba que nossa paciência tem limites e que enfrentará nossa ira caso insista em seus planos sem sentido!
-   Aro tomou Tanya pelo braço e começou a se afastar.

Tanya ainda se virou e fitou Isabella de modo hostil, e partiu com Aro do salão principal. O silêncio tomou conta do ambiente, e Isabella resolveu que o melhor seria retomar a refeição, apesar de agora ter certeza de que havia circunstâncias estranhas naquele clã e no castelo. Talvez seja melhor ir embora, pensou consigo mesma; mas considerou que o seria aconselhável deixar transparecer suas vidas e receios.

-    Não tem nada a dizer, minha dama? - perguntou Edward de repente, com um sorriso amigável.

-   Não quero alimentar suas ilusões, meu lorde.

-   Então me considera iludido?

-    Como poderia me referir à sua intenção de casar-se com uma dama que obviamente enfrenta oposão em sua família, e que ainda nem concordou com tal casamento?

-   E por que hesita em dizer sim? Sou um homem educado, e possuo riqueza para prover- lhe tudo que necessita. Sou um lorde, tenho um castelo e terras bem protegidas. Estou certo de que não conseguiria encontrar um esposo mais apropriado na corte, ainda que pareça arrogante falar assim.

Talvez soe arrogante, mas é a verdade, pensou Isabella. Desviando o olhar, ela resolveu ganhar tempo tomando um gole da cidra suave que lhe haviam servido. A idéia de casar com um lorde a quem mal conheciao a agradava, sobretudo agora que sabia existirem membros no clã que se opunham a tal união.

-    Eu viajava para conhecer o mundo fora dos muros de Dunsmuir - disse ela, fazendo menção de levantar. - Queria conhecer a vida na corte, usar roupas elegantes e dançar nos bailes do castelo. Se algum nobre elegante me cortejasse, talvez eu considerasse a idéia de me casar. Veja bem: digo que talvez considerasse um casamento. Agora, se me dá licença, vou escrever uma carta a minha prima para explicar a razão do meu atraso, e dizer que pretendo chegar tão rápido quanto possível.

-     Faça isso, minha dama - Edward levantou-se e puxou a cadeira para Isabella. - Designarei uma escolta para acompanhá-la ao castelo de sua prima, logo depois de nosso casamento - ele sorriu de modo amigável e despretensioso.


Ela preferiu nada responder, e seguiu em direção à saída do salão. Victoria, que a tudo observava, correu a acompanhá-la e num instante ambas partiam.

-  Que senhorita corajosa, Edward - disse Jasper, ainda sentado à mesa. - Não me pareceu intimidada pelas hostilidades de Tanya.

-   Se teve medo, não deixou transparecer. Isso é bom, pois vai necessitar força e coragem para ser minha esposa.

-   Receio que tentará fugir.

-   Teremos de mantê-la sob observação para impedir que escape.

-   Talvez não aceite casar-se... e você sabe que não poderá desposar uma dama se ela não concordar.

-   Ela concordará em casar comigo.

-   O que o faz ter tanta certeza?

-    Sei que atração entre nós. Sinto isso quando a toco nas os, ou quando nossos olhares se cruzam. Contudo, sei também que ela necessita tempo para compreender e aceitar o que sente.

-   Então o esqueça o que ela disse antes de partir.

-   O quê?

-   Deseja ser cortejada e dançar - Jasper sorriu. - Sabe dançar, Edward?


-   Poderei aprender, e sem vida saberei cortejá-la com elegância. A dama de Dunsmuir talvez resista algum tempo, mas no final aceitará ser minha esposa.


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