sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Cavaleiro da Noite

Capítulo I


Um ano depois



Mais uma vez a carruagem passou por uma pedra da estrada, fazendo Isabella bater as costas contra a madeira dura do assento e levando-a a pensar que provavelmente estaria cheia de marcas no corpo quando chegasse ao castelo da prima. Ao suspender a pequenina cortina da janela, ela notou que o sol já se punha, e provavelmente o encontrariam uma hospedaria antes que a escuridão os obrigasse a parar.

-   Creio que o ultrapassaremos estes montes ainda hoje - comentou Sue, que espiava pela janela.

-    Era esse o plano? - Isabella soltou a cortina e virou-se para fitar a senhora que a acompanhava.

-   Foi o que ouvi nossos condutores comentarem hoje pela manhã. Eles pareciam o ver a hora de deixar estas montanhas para trás.


-   Disseram a razão?

-   Mencionaram algo a respeito de demônios e seres da noite.

-   Suponho que estes picos sempre enevoados despertem a imaginação das pessoas, Sue - Isabella sentia-se curiosa a respeito das lendas da região.

-   No vilarejo em que paramos ontem, eles escutaram comentários a respeito de seres das trevas que infestam estas florestas, e sobre o lorde que habita um castelo num dos picos das montanhas... um lorde mais forte que o mais forte dos homens e que nunca sai durante o dia. Os habitantes do vilarejo contaram que esses seres possuem dentes afiados como os de um lobo, e que são capazes de enfeitiçar senhoritas virgens, fazendo-as entregar a castidade. Contaram tamm que um deles foi capturado pouco tempo, ao ser flagrado no leito com uma mulher do povoado, e que doze homens foram necessários para subjugá-lo. Ah! Disseram ainda que seus ferimentos saravam em instantes...

O tom irônico de Sue demonstrava que ela o acreditava em tais contos e os considerava fruto da imaginação popular. Mesmo assim, Isabella estava contente que tal descrença não a impedisse de contar a história.

-   Eles o mataram, Sue?

-    Sim. Um padre determinou que fosse acorrentado num cadafalso e lhe deceparam a cabeça. O padre ainda disse que, mesmo morto, era necessário queimá-lo e reduzir seu corpo a cinzas, pois se tratava de um demônio, um ser das trevas.

-   Que crueldade! Talvez fosse inocente.

-   Não creio que fosse um demônio, mas inocente não devia ser... e sem dúvida a conduta moral das mulheres do povoado não parece das mais apropriadas.

Isabella suspirou, preferindo calar, pois o queria discutir com a senhora que viajava com ela. Apesar de o fazer parte da família, Sue tinha preceitos morais severos, e por isso Jacob, seu irmão, a escolhera para acompanhá-la na viagem, sabendo que Sue a vigiaria e o permitiria que fizesse nada que não fosse considerado apropriado. O clã dos Swan era conhecido pelas castas regras morais que defendia, mas Sue era ainda mais exagerada que Jacob ao defender a moralidade e o comportamento virtuoso.

Isabella enchera-se de excitação quando o iro consentiu que ela aceitasse o convite para visitar a prima, pois era a primeira vez que se ausentaria do castelo onde vivia, o feudo de Dunsmuir.

Sua prima Jéssica casara com um nobre que possuía amizades na corte, e essa visita significava a chance de conhecer cavaleiros e um estilo de vida sobre o qual a então ela somente ouvira falar, com bailes, banquetes e casos de amor e casamentos entre membros de clãs diferentes. Contudo, era de se esperar que seu iro super protetor fosse descobrir uma maneira de mantê-la sob controle, e Sue era a garantia de que ela não se entregaria aos prazeres que uma vida mais mundana podia oferecer.

De qualquer forma, Isabella estava feliz ante a perspectiva de fazer novas amizades e conhecer um pouco do mundo fora dos muros do castelo de Dunsmuir. Na verdade, ela sentia como se algo especial estivesse prestes a ocorrer em sua vida, e o conseguia se impedir de sonhar com cavaleiros fortes e elegantes que a cortejassem. No entanto, sabia que estes eram


os sonhos de qualquer moça de sua idade e que os lordes da corte tinham maior interesse em cortejar mulheres mais vividas e exuberantes que ela. Era melhor parar de cultivar tais sonhos, seo poderia terminar voltando para casa desapontada.

De súbito, a carruagem deu uma guinada para a direita, fazendo Isabella praguejar ao bater a testa na janela. Sue imediatamente a mirou com olhar de reprovação.

-   Isso o são maneiras de uma dama falar - disse a senhora.

-   Tem razão, Sue. Peço desculpas se a ofendi.

-    Não se trata de ter me ofendido ou o. Meu dever é lembrá-la de como deve se comportar, pois os homens não se aproximam de senhoritas que o possuem bons modos.

Duvido que algum homem se aproxime de mim com você a meu lado, Sue querida, pensou Isabella.

Seu iro Jacob dissera que havia chegado a hora de ela pensar em casamento; mas por que escolhera então justamente Sue para acompanhá-la? Era como se quisesse evitar aquilo que afirmava querer.

Pouco depois a carruagem saiu da estrada e parou numa clareira ladeada por árvores altas. A porta se abriu, e um dos condutores estendeu a mão para ajudá-la a descer. Isabella aceitou a cortesia, porém sentiu desconforto ao encarar seus acompanhantes. Jacob contratara seis cavaleiros para escoltá-las, mas eles eram rudes e pareciam mais interessados no pagamento pelo serviço do que em qualquer outra coisa. Jacob os escolhera porque sabiam usar a espada com presteza, e certamente estavam habilitados a defende-la em caso de necessidade; mas Isabella preferiria estar na companhia de cavaleiros que ela já conhecesse e fossem leais à família, em vez de um grupo de desconhecidos contratados para a viagem.

De qualquer forma, ao menos eles eram eficientes: em pouco tempo já haviam acendido uma fogueira e começavam a assar a carne. Como não puderam chegar a uma hospedaria, teriam de passar a noite ao ar livre, algo que Isabella não apreciava, mas o havia alternativa. Sue se ocupava em estender os pesados cobertores de pele sobre a relva, não muito distante da fogueira, pois necessitavam do fogo para se aquecer do frio da madrugada. Isabella não estava acostumada a passar noites ao ar livre e nem a ter de preparar o pprio leito, mas, afinal, isso trazia um pouco de aventura à viagem.

-   Seu iro não devia ter pago nossa escolta no início da viagem, e sim quando voltássemos
-   comentou Sue quando Isabella se aproximou para auxiliá-la com o preparo das cobertas. - Se o houvessem recebido o pagamento, certamente nos tratariam como rainhas e o seríamos
obrigadas a fazer nossas camas agora.

Isabella sorriu, sentindo conforto ao descobrir que Sue também não apreciava a maneira como as tratavam.

-   Possivelmente pensam que preparar as cobertas não é tarefa para homens - Isabella opinou, tentando contemporizar.

-   O fato é que estão sendo pagos para cuidar de nós. Se eu não fosse uma senhora de respeito, juro que colocaria alfinetes na cama deles para que se espetassem ao deitar.

Isabella riu, imaginando o que aconteceria em tal situação.


-   Não compreendo por que meu iro contratou o serviço de estranhos para nos levarem ao castelo de ssica.

-   Jacob necessitava de muitas mãos para trabalharem em Dunsmuir. Estamos na época da colheita, e se o trabalho o for bem feito agora enfrentaremos problemas de abastecimento no inverno.

-   Tem razão, mas ainda assim eu não concordo com isso.

-   Algum desses homens foi insolente ou a tratou mal?

-   Não! - Isabella apressou-se a tranquilizá-la. - É que nunca saí de Dunsmuir, e preferiria ser escoltada por cavaleiros conhecidos.

-   Em breve chegaremos à casa de sua prima e estaremos entre familiares outra vez.

Depois de ajudar Sue a terminar de estender os cobertores, Isabella voltou para a fogueira, lembrando-se de Alice, sua irmã caçula, que tinha espírito aventureiro e jamais se importaria em estar na companhia de estranhos ou dormir ao ar livre: ela teria prazer em viver tais aventuras. Mas cada um era como era, e de qualquer forma sua família tinha uma linhagem de mulheres corajosas e prontas para enfrentar o mundo. Com um sorriso nos lábios, Isabella beijou o medalhão que sua avó lhe dera há muitos anos e que sempre trazia pendurado ao pescoço.

Fitando as chamas da fogueira, ela refletiu sobre os rumos que sua vida tomava. Jacob tinha esperanças de que a viagem a fizesse encontrar um marido que trouxesse benefícios ao clã dos Swan; mas o que é que ela queria? Apesar das fantasias a respeito de encontrar o homem de sua vida, Isabella não era tola a ponto de pensar que o homem de seus sonhos fosse aparecer de repente. Ela desejava um casamento por amor, e com paixão de ambas as partes, e isso não era fácil de conseguir. Talvez Jacob o a conseguisse compreender, mas seria preferível permanecer sozinha a se unir a um homem que a prezasse pelo dote que tinha a oferecer e pelos filhos que geraria para continuar a linhagem.

Em breve o espeto de carne estava assado, e todos se sentaram na relva para comer. Após a refeição, Isabella ajudou Sue a limpar e guardar os pratos.

A noite não estava fria, e a lua cheia brilhava no céu, iluminando a clareira. Era hora de dormir. Porém Isabella, um pouco irritada e sem sono, decidiu que precisava de uns momentos a sós.

-   Vou entrar no bosque um instante.

-   Não é aconselhável, querida - a senhora fitou a escuridão entre as árvores.

-   Necessito fazer minha higiene - sussurrou Isabella. - Perto destes homens, isso não é possível.

A ama a fitou com um olhar contrafeito, mas sabia que ela tinha razão.

-   Irei com você.

-    Não precisa se importar! Entrarei só um pouquinho no bosque, o bastante para ter privacidade. Não se preocupe, não haverá problemas.

Sue considerou suas palavras um instante, mas afinal consentiu.

-   Es bem. Eu lhe darei algum tempo para ficar sozinha, mas não demore.


-   Obrigada, Sue.

Isabella apressou-se a pegar a jarra com água, uma toalhinha para se lavar e roupas limpas enquanto Sue se adiantava para comunicar aos homens que não deveriam segui-la. Em breve ela já se internava pelo bosque, e escolhia um pequenino espaço livre de arbustos e iluminado pela luz da lua. Depois de depositar as coisas sobre o chão, Isabella se despiu e passou a fazer a higiene, molhando a toalhinha e esfregando-a no corpo para limpar o da viagem.

Em pouco tempo ela já estava pronta para tornar a se vestir. De repente, contudo, tomou consciência da própria nudez e sentiu-se contente por estar ali sozinha, com a luz da lua banhando seu corpo. Isabella apreciava a noite e o frescor do ar noturno, e os ruídos do bosque soavam agradáveis em seu ouvido. Uma calma imensa a invadiu, e então ela se ergueu e abriu os braços, expondo-se aos raios prateados do luar. Feliz, sentia-se integrada ao bosque. Começou a girar, numa dança para a lua, e a cantarolar uma suave canção que as mães de sua família ensinavam às filhas.

Entretanto, uma sensação estranha a fez parar subitamente; sua pele se arrepiou, como se ela estivesse sendo observada. Isabella se vestiu com rapidez, apanhou as roupas usadas e a jarra, e apressou-se de volta para o acampamento.

Antes de atingir a clareira, porém, ela sentiu um aroma de sangue no ar. Silenciosa como um felino, ela se agachou entre os arbustos para ver o que acontecia, e o terror a invadiu quando percebeu que os homens que a escoltavam estavam mortos e um bando de ladrões recolhia a bagagem e as armas. O mais estranho era que não havia sinal de Sue, nem viva nem morta. Agora o havia opção seo correr para salvar a própria pele, e rezar para que não a percebessem. Ao menos, correr era algo que ela fazia muito bem.

Com imensa cautela, Isabella depositou no chão as coisas que trazia e deu meia-volta. Ansiosa, começou a se afastar, retornando para dentro do bosque; mas um dos ladrões percebeu seus movimentos e alertou os demais com um grito. Sem alternativa, ela passou a correr entre as árvores o mais depressa que podia, internando-se cada vez mais nas profundezas da floresta.

A calma e a felicidade que sentia pouco haviam desaparecido, e sua vida corria risco agora. Atrás de si, ouvia os ruídos dos ladrões que a perseguiam, e o mesmo luar que a ajudava a se desviar das árvores tamm os ajudava a ver por onde ela seguia. Correndo o mais que podia, em breve Isabella sentiu uma dor do lado esquerdo do peito por causa do esforço. A floresta subia montanha acima, e em pouco tempo as árvores começaram a rarear por causa da altitude, dando lugar a um terreno pedregoso e com rochas. Os ladrões seguiam em seu encalço, e ela sabia que suas chances de escapar se tornavam menores por sair da proteção do mato da floresta e penetrar um local no qual poderiam avistá-la de longe. Que fazer? Aterrorizada, Isabella pensou que seu fim talvez estivesse próximo, e o sonho de conhecer a vida fora dos muros de Dunsmuir acabaria antes de se tornar realidade.

Exausta, ela parou um instante para recuperar o fôlego. O terreno se tornava cada vez mais íngreme, e já não havia arbustos nem árvores, apenas rochas. Para piorar, os sons de seus perseguidores indicavam que em breve a alcançariam.

Não me entregarei sem lutar, decidiu, recolhendo pedras do chão para atirar nos ladrões. Eles sem dúvida tamm a matariam, mas se tivesse um pouco de sorte, ainda conseguiria feri- los antes que a capturassem. Por um instante ela pensou em continuar a correr, mas era inútil, pois a alcançariam mais cedo ou mais tarde. Seu fim havia chegado.


O primeiro homem apareceu. Ele parou de correr ao vê-la, e começou a se aproximar com um sorriso de triunfo nos lábios. Isabella atirou nele uma pedra, mas o ladrão se desviou. Poucos segundos se passaram antes de outros bandidos surgirem diante de seus olhos.

Subitamente, Isabella sentiu que outras pessoas se aproximavam por trás dela. Ao virar o rosto, notou sombras estranhas e leves emergindo por entre as rochas enormes. Muito surpresa, e acreditando que o pavor lhe provocava uma visão, Isabella vislumbrou a figura garbosa de um homem alto e forte à frente das sombras. Mesmo no escuro era possível reconhecer seus traços masculinos e atraentes; e o mais estranho: ele parecia sorrir.


O que se passou a seguir foi rápido demais para Isabella compreender. Silhuetas escuras pareceram voar a seu redor, e em breve a ultrapassaram em direção aos ladrões que haviam parado, aterrorizados. Logo a noite se encheu de gritos e uivos, e o mesmo aroma de sangue que ela sentira perto do acampamento tomou conta de tudo. Era como se lutassem à sua frente, mas nessa luta seus perseguidores pareciam hipnotizados e eram rapidamente vencidos. Apavorada e sem compreender que formas estranhas eram aquelas que se movimentavam sem tocar o solo, Isabella foi tomada de uma repentina tontura. Seus olhos se fecharam sem que ela o quisesse, e os sons se distanciaram cada vez mais, como se ela flutuasse num túnel desconhecido até os sentidos a abandonarem completamente, e uma imensa escuridão e um silêncio profundo tomarem conta de tudo.



2 comentários:

  1. Ameiii, Vai ser td sexta que vc postará um cap?.
    Louca por essa fic vou acompanhar.

    ResponderEliminar
  2. Com certeza deve ser Edward que bom que alguém surgiu para ajuda-la tomara que Sue fique bem amei bjos...............

    ResponderEliminar